domingo, 8 de agosto de 2010

Comunidade de Monte Alto reivindica que o município goiano passe a fazer parte do DF


Desde os anos 80, quando começou a ocupação, faltam serviços básicos

Mara Puljiz - Correio Braziliense
Publicação: 06/08/2010 08:23
O local tem ares de cidade do interior, mas nem por isso a vida local é pacata: além da qualidade duvidosa da água, problemas de segurança fazem parte do dia a dia dos moradores - (Monique Renne/CB/D.A Press


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O local tem ares de cidade do interior, mas nem por isso a vida local é pacata: além da qualidade duvidosa da água, problemas de segurança fazem parte do dia a dia dos moradores
Com aproximadamente 10 mil habitantes, Monte Alto, distrito de Padre Bernardo, em Goiás, ainda sofre com a falta de infraestrutura. Além de policiamento e transporte escassos, os moradores convivem com o medo de contrair doenças como a hepatite. A água que abastece as casas, segundo a comunidade local, está poluída com lixo, dejetos de animais e defensivos agrícolas. Coceiras e dores de estômago são comuns em crianças e adultos na localidade. O pedaço de terra fica distante 25km de Brazlândia e 65km da sede urbana, mas ainda não está no mapa do Brasil. Por causa da maior proximidade com o Distrito Federal, moradores da região começaram, nesta semana, a fazer um abaixo-assinado para a área deixar de ser responsabilidade do município goiano e passar a ser atendida pelo DF.

A comunidade pretende entregar a solicitação ao governo federal, mas para isso seria necessário fazer um novo zoneamento geográfico. No mapa, Monte Alto aparece como uma fazenda, no alto de uma chapada — daí a razão do nome. O chacareiro Jesuíno Caldeira Quintal, 74 anos, é o morador mais antigo da região. Ele se mudou de Ceilândia para a localidade em 1986 e conta que no espaço existiam apenas três barracos feitos de tábua. O proprietário da fazenda se chamava João Galetti, e o terreno tinha o nome de Fazenda Desterro. “Ele era dono de imobiliária e picotou toda a terra para vender”, contou Jesuíno.

A partir de então, dezenas de famílias começaram a habitar as pequenas chácaras que estavam sendo formadas. “Nós existimos, mas no mapa continuamos sendo um pedaço de terra”, explicou. O distrito foi criado por lei, em 2007, e é reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas nem toda a divisão geográfica aparece no mapa do país.

Carteiros não chegam a Monte Alto. As correspondências são entregues em caixas postais — cada morador aluga uma —, em Brazlândia. Há um posto policial instalado logo na entrada do povoado, mas os moradores quase não encontram agentes na sede ou circulando pelo lugar. Mesmo durante o dia, não há quem se arrisque a deixar a casa sozinha ou destrancada. “Para ir ao vizinho, a gente tem que ficar de olho, porque é questão de segundos para os bandidos entrarem e levarem nossas coisas”, contou a doméstica Fernanda Pereira da Silva, 26 anos.

Água ruim
A dona de casa Glória dos Santos:
A dona de casa Glória dos Santos: "Já nos cansamos do descaso de Goiás"

Na casa de Telma Antônia dos Santos, 50 anos, a água não é canalizada e, por não chegar às torneiras, precisa ser armazenada em caixas de fibra. “Morro de medo do mosquito da dengue e vivo tampando bem as caixas. Para beber água, a gente tem que colocar um remédio chamado hipoclorito, distribuído pelo Ministério da Saúde. O gosto é muito ruim”, disse.

A barragem que abastece as residências também é utilizada para lavar animais e para a diversão de jovens. Quem visita o local vê de longe inúmeras sacolas plásticas, maços de cigarro vazios, latas de cerveja e garrafas pet espalhadas às margens do reservatório. O comerciante Vicente da Costa, 52 anos, precisa passar pomada em todo o corpo depois de se banhar. “É só tomar banho que já começo a me coçar. Não deixo nenhum dos meus filhos chegar perto da barragem.” A Saneago, empresa de saneamento de Goiás, disse por meio de nota que a operação do sistema não é sua responsabilidade. A nota afirma ainda que “a Saneago, atendendo pedido da prefeitura, faz manutenção eletromecânica” e que tem “estudos preliminares para elaboração de projeto e implantação de sistema, dentro dos padrões técnicos que atendam e garantam o fornecimento de água potável”.

Ambulância
Telma Antônia dos Santos: para beber água, somente com hipoclorito - ()
Telma Antônia dos Santos: para beber água, somente com hipoclorito

Segundo o secretário de administração pública de Padre Bernardo, Salvador Duarte, o município se preocupa com a situação de Monte Alto, ao contrário do que alegam os moradores. Ele disse que o Ministério Público entrou com ação civil pública em 22 de abril deste ano por causa da falta de água tratada, e que a prefeitura tem cobrado soluções rápidas para o problema. Assim como Monte Alto, outros três distritos como Trajanópolis, Vendinha e Taboquinha estariam na mesma situação. Na próxima segunda-feira, a prefeitura tem reunião marcada com a Saneago para discutir a questão da água nessas áreas.

Outra reclamação recorrente é a falta de ambulância no posto de saúde. Os médicos atendem durante o dia, mas quem precisar ser levado para algum hospital tem de contar com a boa vontade dos vizinhos que tenham carro. Pelo gasto com gasolina, o frete sai por pelo menos R$ 40. Como Brazlândia é a cidade mais próxima, os moradores de Goiás sempre procuram atendimento no DF, o que contribui ainda mais para o inchaço na rede pública. “A maioria dos eleitores aqui transferiu o título para votar no DF. Já nos cansamos do descaso de Goiás”, desabafou a dona de casa Glória dos Santos, moradora da região há 17 anos. Segundo a secretária municipal de saúde, Fabíola Xavier, a ambulância foi retirada para atender pacientes de hemodiálise. “Eles fazem tratamento em Brasília três vezes por semana e, além de estar em situação mais grave, não têm condições de arcar com as despesas de transporte”, explicou. Outra ambulância para emergência, disse, já foi providenciada.

A comunidade twem se unido pela independência, mas a maior vontade é fazer parte do DF. Para alguns especialistas, a emancipação não seria a solução. Para alcançar a condição de município, o povoado precisa primeiro adquirir autonomia financeira, à custa do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Para tanto, é necessário também cumprir determinações mínimas previstas em lei, como apresentar potencial arrecadatório.

"Para ir ao vizinho, a gente tem que ficar de olho, porque é questão de segundos para os bandidos entrarem"
Fernanda Pereira da Silva, moradora

Personagem da notícia

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JESUÍNO CALDEIRAS QUINTAL, 74 ANOS, MORADOR DE MONTE ALTO
Natural de Coco, na Bahia, Jesuíno veio para Brasília em 1984. Instalou-se em Ceilândia, mas não passou muito tempo na cidade. Logo se mudou para Monte Alto. Ali, havia apenas um pedaço de terra e uns poucos barracos de tábua. Foi da agricultura que Jesuíno tirou e tira até hoje o seu sustento e o da família, composta por nove filhos, 19 netos e três bisnetos. Em Monte Alto, Jesuíno pode se considerar um fazendeiro. É dono pelo menos 10 chácaras espalhadas pelo povoado e se o tornou personagem mais conhecido entre os habitantes da região. Em 1987, ele lembra que muita gente chegou a morar em Monte Alto, mas, após a distribuição gratuita de lotes por um candidato a governador do DF à época, a maioria correu para se instalar em Samambaia em busca de um terreno. “ Chamaram até caminhão de mudança”, lembra. Para se corresponder com os familiares na Bahia, volta e meia o homem de barba aparada, chapéu e bota pega um ônibus para Brazlândia. Lá ele tem uma caixa postal. “Muita gente escreve para cá, mas não chega porque aqui não tem CEP, não tem rua. Não tem nada, mas eu gosto muito daqui. Ainda tenho esperança de que isso um dia vá melhorar. Se cortarem o mapa direitinho, todo mundo vai ver que estamos dentro do DF. Se der certo, vai ser uma boa”, analisou.

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