sábado, 30 de outubro de 2010

Arquiteto ajudou a calcular coordenadas do projeto de eixos e asas de Brasília

30/10/2010 - Correio Braziliense - Conceição Freitas

Jayme Zettel era um jovem recém-formado quando foi trabalhar no escritório de Lucio Costa. Ele foi orientado pelo engenheiro Augusto Guimarães Filho

Carioca de descendência russa, Zettel casou-se em Londres com uma brasileira e veio para a capital chefiar a Novacap - (Arquivo Pessoal
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Carioca de descendência russa, Zettel casou-se em Londres com uma brasileira e veio para a capital chefiar a Novacap

Era um fim de tarde e o Sol se punha na dobra da Terra, que, naquela época, tinha a imensidão vazia da Lua. Brasília ainda era um risco no papel e trilhas no cerrado. O jovem arquiteto Jayme Zettel desceu do jipe à procura do marco zero, da estaca que demarcava o ponto inicial do surgimento do Plano Piloto, o cruzamento dos dois arcos, o Monumental e o Rodoviário. Ele havia calculado, com ajuda de uma máquina Facit manual, o lugar exato de onde partiriam as asas e os eixos, tarefa feita sob a orientação do engenheiro Augusto Guimarães Filho.

Quando viu a estaca zero, Jayme Zettel explodiu em riso. A gargalhada do carioca, neto de imigrante russo, ressoou no vazio. O arquiteto, então, cumprimentou o pedaço de madeira: “Muito prazer, estaca zero”. Haviam sido “alucinantes” os dias de trabalho para finalmente encontrar o lugar a partir do qual se começaria a construir a capital. (É verdade que, àquela altura, em meados de 1957, já haviam começado as obras do Palácio da Alvorada e o Brasília Palace Hotel, mas o Plano Piloto ainda era apenas folhas de papel).

“Aparentemente, o terreno parecia plano, mas não era. Tínhamos de fazer corte, tira daqui, bota dali, vira o Eixo mais pra cá, desce o Plano, acerta com o lago, ajeitando, virando, para escolher a melhor posição da cidade”, conta Zettel, 79 anos, do Rio de Janeiro, em entrevista por telefone. A descrição do arquiteto sugere uma imagem: a de um Gulliver assentando, com as mãos, o Plano Piloto no solo, procurando o lugar mais adequado para aterrissar a Lilliput de Lucio Costa. “Hoje seria uma bobagem. O computador faria tudo.”

Todos os cálculos eram feitos no escritório de urbanismo no Rio de Janeiro e transmitidos via rádio. Era possível sentir, a mais de 1,5 mil quilômetros de distância, a pressa do presidente da Novacap, Israel Pinheiro, para que as obras começassem logo. “O trator já está aqui esperando, câmbio”, gritavam os de Brasília. “Já está indo, já está indo”, respondiam os do Rio. Geralmente, quem estava na mesa para receber e anotar as coordenadas era o engenheiro Joffre Mozart Parada, “um goiano discreto” que pegava os números e ia para o campo transformá-los em dado concreto. “Joffre colocou Brasília no chão, no sentido da topografia. Ele locou a cidade inteirinha”, diz Zettel. O engenheiro de Goiás morreu em 1976.

Privilégio

Imagem dos tempos em que começou a atuar no projeto - () 
Imagem dos tempos em que começou a atuar no projeto

O arquiteto carioca costuma dizer que “tirou a sorte grande”. Logo que se formou, foi trabalhar como desenhista no escritório MMM Roberto. E ajudou a desenhar o projeto dos três irmãos para o concurso do Plano Piloto. Quando Maria Elisa Costa, sua ex-colega de faculdade, convidou-o para trabalhar com Lucio Costa, Zettel teve a sensação de ganhador da Mega Sena daquele tempo: “Lucio era ‘o’ cara. Ele e Oscar (Niemeyer)”. Zettel mudou de emprego, mas continuou ligado no mesmo propósito: desenvolver o desenho da nova capital do Brasil. Só que com uma diferença: ele iria participar dos cálculos do projeto vencedor.

Dois anos mais tarde, em 1959, Jayme Zettel deixou os cálculos de Brasília para fazer um estágio de seis meses no London British Council (Londres, Inglaterra), por indicação de Lucio Costa e Oscar Niemeyer. O planejamento das cidades era um tema precioso para os ingleses. Depois da Segunda Guerra Mundial, foi preciso reconstruir Londres. Foi preciso reinventar a cidade, tirar as indústrias do centro, criar as new towns, as novas cidades, as cidades-satélites. Com tudo isso, Zettel poderia imaginar que os londrinos estavam tão entusiasmados com Brasília quanto os brasileiros. Mas não foi bem assim.

O professor do brasileiro, Johnson Marshall, tinha grave crítica ao projeto de Lucio Costa. Ele dizia que o defeito fundamental de Brasília era ser cortada por dois eixos, o que impediria que ela tivessse core, o centro, no jargão da arquitetura e do urbanismo. O jovem Zettel argumentava que a cidade ainda não estava pronta, que a ideia original incluía um conjunto arquitetônico ligando o Conjunto Nacional ao Conic. A circulação se daria por baixo desse complexo de diversões.

Críticas
Os ingleses também criticavam a monumentalidade da Esplanada, à qual atribuíram clara inspiração renascentista (crítica que continua sendo feita até hoje). Jayme Zettel voltava a defender o projeto do mestre. “Eu acho até hoje que é a grande sacada do projeto do doutor Lucio. Quando você chega a Brasília e olha a Esplanada com aquele Congresso ao fundo, você tem uma sensação de que chegou à capital do país.” Nas superquadras, porém, a escala é residencial. Os britânicos também não gostavam da segmentação — comércio/bancos/hospitais/hotéis. “Essa era, eu diria, a crítica mais pertinente. O resto era bobagem.”

Quando acabou o curso intensivo, Jayme Zettel foi convidado a continuar na Europa. Seu professor quis levá-lo para a Universidade de Edimburgo, na Escócia. “Nem pensar. Imagina perder uma chance dessas na vida.” Ele se referia à oportunidade única para sua geração e para muitas outras de participar da construção da capital do seu país. “Fazer uma cidade em três anos é um milagre e raramente as pessoas se dão conta disso. É uma história alucinada.”

De volta a Brasília, casado com uma brasileira que conheceu em Londres, Zettel foi chefiar a Divisão de Urbanismo da Novacap. A cidade já estava inaugurada, mas era preciso “preencher a estrutura óssea”, pôr os prédios no lugar — escolas, bancos, igrejas, comércio. Foi um deus nos acuda de pressões, pedidos e reclamações, especialmente dos evangélicos, que queriam terrenos para seus templos. “Não havia nenhum preconceito nosso, mas a Igreja Católica era uma só e sabia onde precisava de igreja. As evangélicas eram muitas. A cada dia aparecia uma nova igreja.”

O arquiteto da estaca zero ficou em Brasília até o Golpe Militar. Aqui teve dois filhos, Ivan e Ana. Zettel conta que os dois pequenos brasilienses, quando tinham de desenhar cidades e casas, rabiscavam tesourinhas e plantas baixas. Para o pai deles, Brasília foi “um momento de grande inspiração, um momento muito importante da vida brasileira”. Jayme Zettel foi presidente do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), entre 1992 e1993. No cargo, assinou a Portaria nº 314/92, que regulamentou o tombamento de Brasília. Zettel é hoje o representante brasileiro no grupo de cinco arquitetos que está fazendo a restauração da sede da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York (EUA), projeto de Le Corbusier e Oscar Niemeyer.

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