sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Museu do Automóvel pode perder a sede

Prédio onde funciona o único mostruário de Brasília de modelos antigos e raros corre o risco de ser desativado. Pertencente à União, o imóvel está no centro de uma ação de reintegração de posse
Lucas Tolentino
Publicação: 03/09/2010 08:22

Roberto Nasser, fundador da instituição:
Roberto Nasser, fundador da instituição: "Não questiono o poder deles, mas até agora não conseguiram provar que são realmente os donos"
Preciosidades que remontam à história dos carros produzidos no país correm o risco de parar no olho da rua. O Museu do Automóvel tem até o fim do mês para deixar o prédio onde funciona, às margens do Eixo Monumental. O imóvel ocupado pela entidade pertence à União e é alvo de uma briga de reintegração de posse por parte do governo federal. Há um mês, chegou à direção do local um comunicado da Secretaria de Patrimônio da União (SPU) com a data-limite de saída dos veículos e de todo o aparato que garante as atividades do espaço.

Arquivos do Ministério dos Transportes ficam em uma parte do galpão que acolhe o acervo há seis anos (veja Para saber mais). O órgão quer o restante da área do prédio para guardar outros documentos. Além disso, o espaço físico será usado para a instalação de setores administrativos e de atendimento ao público. Em nota, a pasta ressalta que a fundação mantenedora do museu “vem fazendo uso de parte desse imóvel sem amparo jurídico”. De acordo com o Executivo federal, o contrato de implantação do centro cultural foi dissolvido em 2000.

O ministério enviou o caso para a Advocacia-Geral da União (AGU). A ação de reintegração de posse foi protocolada na última quarta-feira na Justiça Federal do DF. Enquanto a questão não passa pelo crivo jurídico, o idealizador e curador do Museu do Automóvel, Roberto Nasser, se defende da maneira que pode. Advogado por formação, ele pediu que o órgão comprovasse a propriedade do edifício. “No ano passado, o ministério começou a pedir o prédio de volta. Não questiono o poder deles, mas até agora não conseguiram provar que são realmente os donos”, explica.

“Não temos para onde ir e o tempo é muito pequeno para a mudança”, lamenta Nasser. Segundo ele, o galpão pertence à SPU, órgão responsável pelo último comunicado de despejo que chegou ao museu. O Ministério dos Transportes bate o pé e afirma que usa o edifício desde que se separou da pasta da Comunicação. O diretor do Departamento de Destinação de Patrimônio da SPU, Luciano Roda, disse que a quantidade de arquivos do ministério aumentou e que agora eles estão precisando do espaço de volta. “O imóvel já está sob jurisdição do Ministério”, informa.

Raridades
Os seculares calhambeques (à esquerda), carros presidenciais (Ford landau, limusine Itamaraty, na foto central) e exemplares únicos, como o JK, fabricados em série especial, fazem parte do valioso acervo do museu - ()
Os seculares calhambeques (à esquerda), carros presidenciais (Ford landau, limusine Itamaraty, na foto central) e exemplares únicos, como o JK, fabricados em série especial, fazem parte do valioso acervo do museu

Quem passa pelo Eixo Monumental em direção ao Setor Militar Urbano nem imagina que, por ali, existem tantas relíquias sobre rodas. No museu há um dos primeiros carros de corrida feitos para o Brasil concorrer em campeonatos internacionais. Outro destaque é um automóvel de 1967 da Fábrica Nacional de Motores (FNM), o primeiro a mostrar que uma montadora estatal estava sintonizada com as tendências do mercado. O visitante encontra até uma limusine histórica produzida pela Willys. A empresa fez apenas 23 exemplares do veículo, e um deles está no centro cultural.

Os moradores do DF não podem perder o acesso a um acervo tão rico, na opinião do universitário Pedro Reis, 22 anos. “É um lugar com muitas raridades. Não só os apaixonados por carros, mas toda a população deve conhecer”, afirma. O estudante de relações internacionais acredita que a divulgação do espaço precisa melhorar. “Passei por perto para resolver outras coisas, vi o museu e decidi parar. Mas a maioria das pessoas nunca ouviu falar dele”, acrescenta.

O número
100 mil

Quantidade de visitantes do museu desde a inauguração, em 2004


Confira as exposições
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» 100 Anos do Ford Modelo T
A história de dois carros antigos da marca, um de 1919 e outro de 1926. Com materiais usados na manutenção dos automóveis e banners explicativos. Até dia 22.

» Brasília e JK-50
Apresenta o carro lançado pela Fábrica Nacional de Motores no dia da inauguração de Brasília e outros nove veículos derivados desse modelo. A partir do dia 23.


Para saber mais
Relíquias expostas


A ideia de preservar a memória da indústria automobilística brasileira ganhou forma em abril de 2004. Durante os seis anos de existência, a instituição recebeu cerca de 100 mil visitantes. Antes disso, desde o fim de 1994, o edifício abrigava somente a Fundação Memória dos Transportes, entidade sem fins lucrativos que mantém o centro cultural. O espaço tem 1,8 mil metros quadrados e funciona em um prédio do governo federal. Além das raridades da exposição principal, o galpão guarda 40 veículos antigos e um acervo de 6 mil livros sobre o mundo dos carros. Há, no local, automóveis de colecionadores, entre modelos do acervo de Roberto Nasser ou de doações de outras organizações.


Conheça

O Museu do Automóvel funciona de terça-feira a domingo, das 11h às 17h. Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). Local: Setor de Garagens Oficiais Norte, Quadra 1, nº 205, às margens do Eixo Monumental, na altura do Memorial JK. Informações: 3225-3000.

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